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O Líder está Morto

Posted in Uncategorized with tags on 23/06/2013 by mariolimpio

Tenho uma análise pessoal sobre as manifestações rueiras dos últimos 20 dias no Brasil. Primeiro um panorama sobre o formato. São manifestações convocadas por meio das mídias sociais. São suprapartidárias, mas contam com a presença de partidos, especialmente aqueles que estão apeados do poder. São pluripautadas e nuclearizadas. Se eu fosse mais pedante eu diria: rizomáticas e randômicas. Cada pessoa, uma pauta. Aqui em Cuiabá tinha até marmanjo pedindo uma namorada igual à do Neymar: direitos iguais. O grau de engajamento deixou arrepiados os cabelos dos mais puristas.
Causa e consequência, a dona Dilma, depois de uma semana calada e tentando entender a coisa, foi à televisão e deu um espetáculo de ignorância e arrogância. Tiro três pontos do seu discurso. Ela disse que iria pedir ao congresso nacional a aprovação da matéria que destina a totalidade dos royalties da exploração do petróleo no pré-sal para os investimentos em educação.
Alô, dona Dilma? O investimento em educação é para ontem. Passar a bola pro Congresso não é lá uma ideia muito original.
Depois ela disse que condena os atos de vandalismo. Este é o discurso da direita. Da Rede Globo que pela primeira vez vê um movimento que não nasceu das suas ficções e que tenta agora, tardiamente, pautar. Eles querem uma manifestação ao estilo da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade que em 1.964 abriu as portas para o regime militar assumir em nome de uma questionável confortabilidade.
A dona Dilma empunhou armas, assaltou bancos e pode até ter cometido outras violências que estão muito, mas, muito além dos saques às lojas, prédios públicos e carros queimados, vistos nas manifestações das ruas. O momento era outro? Claro que era. Ela lutava contra a ditadura? Agora os rueiros lutam contra a corrupção e a favor de outras ideias de gestão e noções de desenvolvimento tão importantes quanto a luta contra a ditadura da dona Dilma e muitos de nosotros.
Tem mais. Resolver o problema da saúde com a importação de médicos cubanos é o mesmo que dizer que vai resolver o problema de infidelidade do cônjuge vendendo a cama onde ele pratica seus atos libidinosos e traiçoeiros. O problema da saúde coletiva tem à ver com o problema da democracia brasileira.
Mas, o discurso de dona Dilma é só o melhor retrato de como os políticos tradicionais entenderam, ou não entenderam, o recado das ruas.
O governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad deram outro espetáculo de incompetência política e falência estratégica na leitura das mensagens. Começaram descendo o cacete e terminaram achando que baixando o preço da passagem de ônibus resolveriam o problema.
Por fim, uma compreensão que me coloca meio na contramão das opiniões predominantes. Ouço constantemente pessoas amigas, e outras nem tanto, dizendo que esperam agora pelo desenrolar dos acontecimentos. Meio que esperando uma sequência do que aconteceu nas ruas. Naturalmente, outras dizem que esperam que esta manifestação acabe significando uma mudança de consciência na hora de votar, em 2014 e nas outras eleições que virão.
Sinto muito desapontar os amigos, nem tanto os inimigos.
Essas manifestações nas ruas não é o início de nada. É o fim. As pessoas foram às ruas para celebrar. Para comemorar – a festa da torcida campeã – uma ação que começou no momento em que aumentou o número de brasileiros na internet. Sim. Se existem símbolos predominantes nas manifestações esses símbolos são dois: a internet e o seu sistema operacional e o grande e simpático V, o herói da clássica grafic novel de Allan Moore publicada no final dos anos 80 e transformada em filme pelos irmãos Wachowski nos anos zero-zero.
São várias a presenças do sistema operacional da internet e de V nas manifestações. A primeira: não há líder. O líder morreu. Este é um princípio do anarquismo. Aliás, V é um anarquista. Em Cuiabá alguém tentou fazer palavras de ordem do alto de um trio elétrico. Foi cômico. Ninguém seguiu. A caminhada se dividiu em duas e sem prejuízo, cada uma foi para um lado. Valeu. Precisamos caminhar mais.
Outra característica: a variedade de pautas e reivindicações. O ditado cuiabano já antecipava: cada qual com o seu deles. Estamos juntos, misturados e vamos adiante. Mas, eu com as minhas ideias e você com as suas. A gente se encontra onde a linha paralela cruzar. Foi divertido ver a quantidade de posts/pôsteres empunhados pelos manifestantes.
Existe um ponto especialmente bom. As pessoas me dizendo que querem ver o que vai acontecer nas urnas.
Pessoas, sosseguem!
As urnas acabaram. As eletrônicas e a manuais. O brasileiro universal acabou de dizer: quem manda é a rua e a rua decide o que vai acontecer. Políticos, preparai-vos, começou um outro olhar. E a rua é a internet. O que aconteceu é que os tradicionais, puristas e saudosistas – para dizer pouco – diziam: eles ficam no computador e não vão para as ruas. O que as ruas falaram é isto: estamos na internet e nas ruas! É pouco ou querem mais?
Meninas e meninos, o Brasil mudou. O modelo democrático que até então vigia, acabou e a partir de agora o momento é outro. Quem não entender, bacana, tenha a decência de não atrapalhar. Quem entendeu, vamos adiante.
Outra coisa, o Renato Russo é o muso das paradas.
Vejam isto: http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4

A Vida É Bélica

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 16/01/2013 by mariolimpio

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RESUMO

Este artigo tem o objetivo de enxergar como os grafites e as pichações são percebidas nas ruas de Cuiabá. Entrevistamos por meio de questionários enviados e recebidos via internet e face a face três grupos de pessoas: os grafiteiros e produtores de grafites; gente do mundo da arte e da publicidade; e transeuntes, andantes, caminhantes, convivas e usuários das praças públicas da cidade.

Temos como hipótese que os grafites são uma das formas de arte contemporânea mais presentes na cidade e que as pessoas envolvidas na sua produção buscam formas de interagir  para transformar realidades sociais.

Fomos buscar referências entre teóricos do campo da filosofia, sociologia, semiótica da cultura, história e do mundo da crítica de arte.

Esperamos que o resultado contribua para os estudos da cultura e da arte contemporânea de Cuiabá e Mato Grosso.    

 

“Só acredito no semáforo

Só acredito no avião

Eu acredito no relógio

Só acredito

Eu só acredito”

(Semáforo, Hélio Flanders, Vanguart)

1. INTRODUÇÃO

Depois de algum tempo longe da academia, minha graduação deu-se num longínquo 1993, voltei aos bancos da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT admitido para o mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea, do Instituto de Linguagem. É certo que entre a graduação e o mestrado cursei uma especialização em Planejamento e Gestão Cultural (2002-2003) – coordenada pela Associação dos Produtores Culturais de Mato Grosso – na Universidade de Cuiabá – UNIC. Diferente da especialização que se propunha à formação profissionalizante, o mestrado propõe-se à formação acadêmica, fato que me exige disciplinas pouco comuns ao meu cotidiano, de advogado, produtor cultural e ativista das políticas de cultura.

Veio da professora doutora Juliana Abonízio da disciplina Subjetividade, Cotidiano e Pós-Modernidade a proposta valendo nota como trabalho de conclusão de um artigo que abordasse os textos discutidos em sala de aula ao longo do período semestral. Depois de muito ir e vir, mais dúvidas que certezas, escolhi pesquisar sobre os grafites exibidos nas ruas de Cuiabá no período de 2005 até os dias de hoje.

Os grafites são presenças recentes nas ruas de Cuiabá e Várzea Grande, cidades que formam uma só conurbação com 804.059 habitantes (IBGE, 2010), unidos pelo rio Cuiabá. É mais comum aos olhos das pessoas que transitam pelas veias públicas a visão de desenhos e pinturas produzidas por artistas plásticos em prédios, arrimos, muros, viadutos, postes e até em carrocerias de ônibus do sistema de transporte coletivo urbano. A presença das artes visuais em espaço público e aberto em Cuiabá remonta aos anos 70. Grafites e pichações surgem no final da década de 90 e ganham evidência no espaço urbano somente durante os anos 00, quando Cuiabá e Várzea Grande experimentam índices elevados de crescimento demográfico, acima da média nacional. Este é o período que interessa a este artigo.

Desde meados da década começamos a registrar em fotografias as variadas formas de expressões grafiteiras estampadas na cidade. O que começou como uma espécie de registro diletante e descompromissado bem ao estilo do flâneur de Baudelaire (1821-1867) e Poe (1809-1849) acabou como indagações que transformamos nas perguntas que estimularam o artigo: qual a animação e a intenção dos autores e produtores dos grafites? Qual a diferença entre pichação e grafite? Como os grafites são percebidos pelas pessoas, transeuntes, passantes, viventes, usuários, convivas das ruas de Cuiabá?

 Para tentar resolver o problema fomos buscar em Rudio (2007, p. 114) a metodologia. Por meio das mídias sociais na internet, especialmente email e comunicadores instantâneos como o Messenger e o facebook, enviamos questionários e recebemos respostas, além das entrevistas orais, face a face. Entrevistamos 30 pessoas divididas em três grupos: os produtores de grafites, compreendidos aqui os artistas e entidades, como a Central Única das Favelas em Cuiabá – CUFA, que tem no grafite um elemento de trabalho; pessoas do mundo da arte e da publicidade; e, caminhantes colhidos ao acaso nas imediações de muros, paredes, postes, suportes, enfim, locais, endereços, lugares, entorno, proximidade, espaços de circulação e trânsito utilizados para a grafitagem. No corpo do artigo, as opiniões serão apresentadas como recebidas, portanto com formatos diferentes entre as colhidas textualmente e as colhidas oralmente. Iremos mostrar, ainda, algumas imagens que contribuam para o desenvolvimento do tema.

No desenvolvimento iremos abordar a dimensão artística, estética, poética e as subjetividades do grafite. Também, até por força das nuances das falas dos entrevistados, trataremos de estilos e autores, mercado e mercadores. No entanto, para o artigo, interessa muito mais a dimensão social dessa expressão, muitas vezes coletiva e anônima.

Como hipótese que levantamos antes das entrevistas, transcrição, análise e desenvolvimento do artigo, imaginamos que não somos todos flâneurs. As percepções são diferentes e plurais. Quais são, então, essas percepções? Como exercício e direção, lembramos de PAIS (2010,20) que

A arte, por exemplo, não nos fala apenas da sua estética, informa-nos também das correntes socioculturais que a possibilitam. Há que interrogar as imagens, entrevendo-as como mediadoras entre imaginários e estruturas sociais. Na arte como na vida – mesmo a da lufa-lufa quotidiana – as coisas não são apenas o que são mas também o que significam. PAIS (2010, 20).

2. A ARTE NAS RUAS DE CUIABÁ

Quando falamos em arte queremos dizer artes visuais, assim compreendidas as artes plásticas, pintura, desenho, escultura e fotografia, e quando falamos em ruas queremos dizer espaços urbanos, externos, de acesso público e gratuito. Se fôssemos nos dedicar às outras manifestações o tamanho de um artigo seria pequeno. Mas, precisamos dizer de uma característica que mesmo o crescimento demográfico não conseguiu inibir: a vocação que Cuiabá tem de festejar nas ruas. Neste período de junho e julho pipocam festas de santos em todos os lugares. Bairros, chácaras, comunidades rurais, cidades menores nos arredores da conurbação. Festas que começam e terminam nas ruas. É usual ver e ouvir pelas ruas centrais a “bandeira de São Benedito” em procissão com músicos e fiéis arrecadando esmola para a maior e mais antiga festa de santo de Cuiabá. Nestas festas, atrações certas são o cururu e o siriri, expressões artísticas que nasceram nos quintais e se estenderam pelas ruas.

Cuiabá tem fama de animada vida noturna. Esta fama é muitas vezes creditada ao sol e ao calor, que estimulam as pessoas a saírem de casa e irem para rua até a temperatura baixar, o calor diminuir e aí sim voltar para casa e dormirem tranqüilas. Do sol também parece ser o mérito quando o tema é arte na rua e vem daí o apelido “cidade verde” herdado dos tempos em que os quintais eram predominantes nas casas da zona central.

Nas artes visuais, coube ao artista plástico Humberto Espíndola inaugurar em Cuiabá a técnica de ampliar e transportar uma obra para o espaço público dos murais e paredes externas, ao planejar e executar em mármore, granito e pintura o painel Faces I e II, medindo 371m², nas paredes do Palácio Paiaguás, sede do Governo do Estado de Mato Grosso, em Cuiabá no ano de 1975, portanto três anos antes de divisão do estado, ocorrida em 1978. Em meados dos anos 80 artistas e produtores culturais parecem despertar para essa vocação e começam um movimento de ocupação dos espaços públicos. Viadutos, arrimos, postes de iluminação, prédios e muros das principais avenidas são invadidos e transformados em obras de arte com símbolos, ícones e figuras criadas e executadas por Adir Sodré, Gervane de Paula, João Sebastião, Dalva de Barros, Sebastião Silva, Marcelo Velasco, Julio Cesar, Nilson Pimenta, Maurílio Barcelos, Jonas Barros, artistas atuantes e consolidados no meio cultural mato-grossense. Com a participação de pintores publicitários, experientes na técnica de ampliação e reprodução em superfícies irregulares e material industrial como cimento, concreto e metais, no periodo pré-coreldraw, os artistas chegaram a levar as suas obras para carrocerias de ônibus do transporte coletivo urbano de Cuiabá. Esta tendência se estende até os dias de hoje e o espaço urbano se transformaria num valioso suporte de exposição, circulação, difusão e consumo das artes contemporâneas.

No entanto, se as artes visuais encontram rápida aceitação e mesmo apoio oficial do governo e proprietários de espaços públicos, o caminho da pichação e do grafite não é o mesmo. Aliás, o grafite, tal como hoje vemos, só começa a aparecer nas ruas de Cuiabá a partir do fim dos anos 90 e início da década 00. Não por acaso logo após a conurbação experimentar o maior crescimento demográfico da sua história. Em 1970, Cuiabá e Várzea Grande tinham 119.011 (IBGE) habitantes, saltando para 698.644 em 2000 (IBGE) e chegando a 803.694 em 2010 (IBGE).

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 3. PICHAÇÃO E GRAFITE

Em Cuiabá, os primeiros grafites surgem com a transformação urbana. A crítica de arte Aline Figueiredo traça esse paralelo:

o grafite chegou em Cuiabá porque Cuiabá cresceu barbaridade. Ficou urbana de repente. E o grafite, prá mim, é uma arte puramente urbana, uma arte de um desejo urbano, de uma manifestação urbana e do anonimato.

Júlio Carcará, artista circense, lembra que:

 primeiro, era anonimato porque nem era interessante que aparecesse, era marginal. O cara ia lá fazer um protesto num muro e era melhor fazer no anonimato, era meio pirata mesmo.

Esta observação permite uma primeira comparação entre pichação e grafite. Encontramos no dicionário as definições para ambos os verbetes. Pichação aparece como:

 s.f. Ato ou efeito de untar com piche; pichamento. Inscrição feita à mão, com pincel ou freqüentemente aerossol (p. ex., num muro de cidade, na parede de um prédio etc.); grafite. Ling. inform. Ato de falar mal de alguém; censura.

 E Grafite aparece como:

s.f. Forma corrente de grafita, especialmente nas aplicações industriais desse mineral. Lápis. art. gráf. e art. Des. Bastonete que serve para obtenção de efeitos de luz e sombra nos esboços de desenho; esfuminho. Inscrição ou desenho rabiscados à mão sobre um muro, uma parede, uma estátua etc.; pichação.

É claro que não é da natureza dos dicionários aprofundarem em análises além das palavras, mas é inegável que nos mostram rumos, caminhos, dicas para alcançarmos o que procuramos. A primeira dica é que grafite e pichação são sinônimos. A segunda é de que o suporte é o mesmo, ou seja, muros, paredes das cidades, mas encontramos algo que os diferencia de maneira objetiva. A pichação segundo o dicionário seria também ato de falar mal de alguém; censura. Definições não atribuídas ao grafite.

Saímos às ruas de Cuiabá e perguntamos qual a diferença entre um e outro e o resultado se assemelha àquele proposto pelo dicionário consultado.

Julio Bedin, publicitário, disse que:

no sensorial, pichação me vem como o sujo, o underground, o feio, o transgressor, a raiva, mas ao mesmo tempo, o pai de todos, como se ali fosse uma origem. O grafite me vem como o permitido, o autorizado, a manifestação de pensamento programada, até mesmo um tampão para se maquiar um lugar feio, abandonado. Uma obra comprada, quase que um mecenato, uma encomenda. Basicamente, pra mim, a diferença entre um e outro é que um tem a liberdade transgressora e o outro a liberdade vigiada.

A estudante Giulia Medeiros diz:

Acho que o grafite é uma expressão artística e a pichação ela vem de uma maneira mais prá agredir a sua visão a sua sensibilidade de enxergar a coisa. Ela vem prá impor alguma coisa, impondo. E a arte não, ela vem mostrando de um jeito mais singelo, mais sensível, com sensibilidade, a parte bonita da vida.

Quando perguntada qual a expressão que percebia da pichação, disse:

É um jeito que as pessoas usam para colocarem a opinião deles de alguma forma. Serem ouvidos por aquilo que eles pensam, ou que eles concordam ou não. Tem a linguagem deles, mas particularmente é uma coisa que não me agrada olhar. Acho que é uma coisa que polui a visão da cidade em vez de melhorar.

Diogo Rodrigues, grafiteiro e designer gráfico da Central Única das Favelas em Mato Grosso, CUFA-MT, responsável pela condução dos programas da entidade para a área do grafite, coloca mais elementos à discussão:

Bem, primeiramente algumas pessoas vêem com bons olhos, vê: “nossa, é arte!” e tal, algo diferente, que elas não conhecem também, mas às vezes têm outras pessoas…como outros grafiteiros que tem uma agressividade no sentido de expor os sentimentos deles dentro da arte que eles faz…isso daí as vezes as pessoas vêem como poluição…principalmente pichação…tem aquele sentido de pichação como grafite, entre grafite e pichação…um e outro….aí fala que a pichação é mau e o grafite é bom, é bonito… enfim, mas, a pichação também leva um certo tipo de sentimento para a sociedade, só que ela não é vista com bons olhos pela sociedade, entendeu…

Fomos nos socorrer na Wikipedia e encontramos conceitos que compartilham as opiniões dos nossos entrevistados, mas chamou-nos a atenção a variedade de verbetes, gírias e idéias associadas ao grafite: 3D, Asdolfinho, Backjump, Bite, Bombing, Bubble Style, Cap, Characters, Crew, Cross,Degradé, End to end, Fill-in, Hall of Fame, Highline, Hollow, Inline, Kings, Outline, Roof-top,Spot, Tag, Throw-up, Top to bottom, Toy, Train, Whole Train,Wild Style, Writer.

Pichação ou grafite, grafite e pichação, essas formas de expressão ganharam as ruas de Cuiabá. E o que elas querem dizer?

4. POLÍTICA E PROTESTO

O crescimento demográfico da pequena metrópole não passaria incólume. Nascida da febre do ouro de aluvião, farto e de fácil coleta, a cidade de Cuiabá prosperou sem nenhuma forma de planejamento. No seu último ciclo de crescimento, do qual trata este artigo, fruto da marcha para o Brasil profundo, estimulado pela construção de Brasília no Planalto Central, Cuiabá não estava preparada para receber tantas e tão diversas pessoas. Da infra-estrutura até os mais elementares serviços públicos como saúde, educação, segurança, lazer, cultura, desportos são prestados com deficiência e improviso pelos órgãos dos governos municipal, estadual e federal.

O crescimento demográfico veio acompanhado do crescimento econômico, mas também da desigualdade na distribuição de rendas. Cuiabá aparece como a 44º cidade mais rica do Brasil (PIB-IBGE-2010), mas ocupa o 380º lugar quando o tema é o equilíbrio entre emprego e renda, educação e saúde, pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM-2010) e figura em 214º pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-2010).

A ocupação urbana reflete esses números. O perímetro urbano de Cuiabá se alargou e hoje já são mais de 240 bairros, a imensa maioria excluídos dos benefícios das políticas desenvolvidas pelos governos. Natural que as pessoas se manifestem politicamente contra esta realidade.

A arte urbana é um desses veículos de manifestação. O rapper Linha Dura e o DJ Taba, cuiabanos, moradores de bairros periféricos, ativistas da política cultural, um na CUFA e outro na Favela Ativa, assinam uma espécie de manifesto na canção Direção, que abre o disco da dupla.

Tô de rolê e tenho uma direção

Para o governo eu ando na contramão

Poder paralelo, sempre acreditei.

No volante é o rap

Acelera aí DJ Taba

Faz squash nas bolachas meu baú é destino para o Alvorada

Logo de manhã faço a minha oração

Sandália de fogo prá pisar em escorpião e serpente

Vc está contente?

O burguês com um milhão e você aí carente

Com 300 contos de salário?

Não tem posto de saúde nem asfalto no seu bairro.

Subiu a poeira quando passa o busão

Entrou na sua goma e sujou seu coração

Político ladrão tem um monte na assembléia

Deus acaba logo com essa nova era,

Cospe fogo na Assembléia,

Nos assassinos sociais,

Deixa no barraco, sem luz e sem gás, sem dinheiro

Só prá sentir o drama do bagulho.

Não existe amor em quem direciona o mundo.

Direção?

Direção/amor.

Então, direção, poder, diferenças…

A favela tá na direção.

Gurizão não diminui…

Quem?

Vc mesmo!

Jogue fora a muleta do auto desprezo.

Ande com as suas próprias pernas e seja sábio.

O rico não é melhor.

Deus fez nós do mesmo barro.

Entusiasmo prá seguir no objetivo.

Um beijo pras mães solteiras que cuidam dos seus filhos.

O pai tá vivo mas, fica quieto, vira o disco.

A corrida é de rato, assim é o capitalismo.

Eu dirijo rumo ao sucesso.

Não agüento mais ver desordem nem regresso.

Ficar esperto.

Você tá no labirinto, não viaja na etiqueta o artista tá te iludindo.

Eu não tô nem aí pros playboys do Santa Rosa, lá do Schangri-lá e também do Califórnia

Cês tão na roça

Jesus veio para o gueto

Lembro da história da agulha e do camelo

Meu pensamento, na moral, é estratégico

Do boy só quero a grana do povo periférico

Aí sonhador, vai, muda a sua história

A direção é toda sua

Rumo à vitória.

   Karina Santiago, vice-presidente nacional da CUFA, cuiabana, diz o que é o grafite para a entidade:

é mais uma das linguagens da CUFA de diálogo com a juventude. As suas cores, formas e o próprio processo de produção, uso do spray e muros, atrai a juventude e incentiva a criatividade. O fato das intervenções de grafite formarem indiretamente uma grande galeria a céu aberto, aproximando a arte do dia a dia das pessoas, vista na rua, nos ônibus, durante uma pedalada de bicicleta, torna a arte mais pública e conseqüentemente, toca e informa a cidade sobre os diversos temas.  O fato de o grafite alinhar a sua produção estética às causas para o desenvolvimento social de comunidades e favelas e elevação da auto-estima da população negra, são também elementos de importância  para a Central Única das Favelas.

A catadora de material reciclável Gislene Pereira Barros, entrevistada na avenida Lavapés, em frente a um dos murais com desenhos executados por grafiteiros convidados pela CUFA parece entender a idéia:

Sou catadora de materiais recicláveis, faço parte da associação, estou registrada em São Paulo…estou falando do grafiado porque eu acho que essa técnica é uma forma de divulgar também os catadores, porque se  mostrar no impacto ambiental, quanto o óleo… quantos litros de água pode poluir no rio…se a dona de casa juntar seu material ela vai tá diminuindo a incidência de dengue no seu próprio espaço….

Com desenvoltura, Gislene acrescentou mais um verbete ao grafite: grafiado. Perguntei de onde ela havia tirado a palavra e ela:

(…) não sei se é o certo ou não. Não sei se é o correto falar, mas eu acho mais lógico falar desse jeito, não sei se é o correto…Eu acredito que a técnica de grafite ou grafiado vai ser uma forma de captar mais a atenção do povo. Porque às vezes as pessoas não prestam atenção no que as pessoas falam. Mas, imagem capta mais atenção das pessoas e vai ser uma forma de, querendo ou não, conscientizar a população.

Sobre a vantagem que a imagem leva sobre a fala, aqui a catadora entende como PAIS (2010, 43) quando diz:

Toda essa sinalética nos dá conta da primazia da imagem sobre a fala ou, melhor, da relevância da imagem que fala, de uma fala muda que comunica através da imagem…

O antropólogo português está a falar do paradigma do encontrão, e continua, falando do seu conterrâneo o poeta Fernando Pessoa que quando:

realizou o seu primeiro passeio de automóvel, o que mais o surpreendeu, na velocidade, foi o sentimento do desaparecimento rápido das coisas: da rapariga imaginada à janela de um casebre à perda de si mesmo. PAIS (2010, 35).

Com a devida licença poética, as pichações e os grafites estão desafiando o achatamento da realidade que torna as cidades mais opacas. E cada um vê o que pode. Valdinei, vendedor ambulante de salgados, pedalando sua bicicleta com uma caixa térmica de isopor na garupa, abordado por mim sobre o que achava da pintura no muro, não titubeou e soltou um rápido: horrível. E quando se ele sabia a diferença entre grafite e pichação, observou, impávido:

 Qualé a pichação? Isso não é pichação? Isso é arte ou o que é que é? Pois é, eu acho esquisito demais isso aí. Acho que deveria ser mais bonito, né? Sei lá, um guri fumando droga ali…

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Mas, nem tudo é protesto, ou feio, ou sujo, ou agressivo. Um grupo anônimo chamado 7 Anões da Lata nascido no ambiente da Universidade Federal é um dos mais ativos no período. Usando a técnica da máscara ou estêncil executam uma arte expressionista, com desenhos bem delineados e com uma linguagem que se aproxima muito mais da crônica que do protesto. Parece querer mostrar muito mais a técnica e a citação reproduzindo retratos de ícones da música, pintura, cinema e objetos pinçados do imaginário pop.

No entanto, não deixam de lado o caráter propositivo da expressão. Quando da Marcha da Liberdade, uma manifestação em apoio à descriminalização da maconha e às outras causas menos visíveis, a cidade amanheceu com desenhos grafitados em pontos estratégicos, chamando para a manifestação, mostrando um aparelho de televisão e no quadro da imagem as palavras marche, lute.

Num ponto de ônibus da avenida São Sebastião, em frente à praça Santos Dumont, ao fundo uma dessas imagens grafitadas, entrevistei a acupunturista Vânia Benício:

Esse é interessante! É uma televisão, né, e “marche” e “lute” parece que é o que trás assim: ó não se entregue, você tem que correr atrás do que você acredita, do que você quer…é interessante esse aí…é até legalzinho…pequenininho…

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5. ARTE CONTEMPORÂNEA

Valdinei e Vânia que não se enganem. Eles estão frente a frente com a arte contemporânea. Aline Figueiredo, em entrevista face a face, nos diz:

A arte contemporânea que pegou essas frases, essas coisas, ou frase ou figura. E como a arte contemporânea é aberta a todas as manifestações, a todas as impressões, ela incorporou também esse dado. O grafite sempre existiu desde a pré-história, a idade média. Nós, os contemporâneos que consideramos que esse seja um veículo de arte midiático.

Tem toda uma aceitação, tem o muro, tem o espaço. São artes plásticas e as artes plásticas acontecem no espaço. A música acontece no tempo. As artes plásticas no espaço. Você tem que dar um espaço, e aí eles enjoaram de só escrever aquelas letrinhas tipo góticas e vai ganhando uma personalidade de você desenhar com expressividade, com a expressão de chegar. Então você vê que qualquer pessoa  tanto da periferia quanto do centro já ganhou aquela expressiva,  já ganhou aquela força expressiva de desenhar. Aquilo já é domínio público.  O próprio desenho já virou um direito público. O fato deles desenharem, e cada vez mais bonito, eles estão percebendo a beleza que tem isso. E eles se apropriam de todos os signos da cidade.

Nicolas Bourriaud, em seu Pós-Produção, discorrendo sobre os espaços da arte contemporânea, fala:

É o socius, ou seja, a totalidade dos canais que distribuem e repercutem a informação, que se torna o verdadeiro local de exposição para o imaginário dos artistas dessa geração. O centro de arte ou a galeria são caso particulares, mas fazem parte de um conjunto mais amplo: a praça pública. (…)

E alerta,

Dessa forma, não se trata de opor a galeria de arte (local da arte “separada”, portanto, mau) a um espaço público idealizado como local do “bom olhar” sobre a arte, o olhar dos transeuntes, ingenuamente fetichizados tal como antes se idealizava o “bom selvagem”. A galeria é um local como os demais, um espaço imbricado num mecanismo global, um acampamento de base indispensável a qualquer expedição. Um clube, uma escola ou uma rua não são lugares melhores, são simplesmente outros lugares para mostrar a arte.

Diogo Rodrigues comemora:

hoje em dia o grafite, tanto em São Paulo, ele é bem visto dentro das maiores mostras de artes plásticas do mundo. E aqui está caminhando prá esse ponto. Hoje tem um grafiteiro que estava fazendo um work shop há pouco tempo lá no Sesc (Arsenal)…saiu fora da rua prá entrar prá dentro de algo mais centralizado, ou seja não é só prá periferia, de certa forma a elite está conseguindo digerir isso também.

6. MAGIA PROPICIATÓRIA

Assim Aline Figueiredo começa o seu A Propósito do Boi:

Recuado no tempo, há 40 mil anos, o Homo Sapiens observa curioso as linhas sinuosas das paredes de cavernas recobertas de argila. Percebe que aquelas linhas soltas pela grafia natural se assemelham aos dorsos dos animais. Encantado, brinca com os dedos sobre esses sulcos maleáveis, quer completar o desenho sugerido. Assim, de tentativas e tentativas, um dia ele controlará os traços até chegar à figuração das formas.

Na apostila apresentada na disciplina de Semiótica da Cultura, professora doutora Lucia Helena Possari, vamos ler que Bystrina, em Tópicos de semiótica e cultura diz que “Na sua origem (a cultura), duas esferas são subumanas: o sonho e o jogo ou brincadeira. As demais esferas surgiram no âmbito mesmo da cultura”.

E sobre o sonho, escreve:

Os mitos nos mostram a grande influência que o sonho tem sobre a cultura. Existe um mito compartilhado por aborígenes australianos que evidencia a força criativa do sonho. Nele, o sonho exerce o papel de criador, é o próprio momento da criação de tudo o que existe. Os primórdios da criação, quando todos os seres surgiram, é designado por esses aborígenes como o “Tempo dos Sonhos”. Na sua narrativa, os primeiros seres sonhavam as plantas, os animais; depois desenhavam seus sonhos em rochas e lhes davam a alma. A partir dos desenhos na rocha, os seres adquiriram corpo, materialidade.

Karina Santiago, quando perguntada o que eles esperam quando fazem os grafites, diz:

Após a produção de um mural grafitado espera-se que as pessoas sejam sensibilizadas com as cores, com as formas, que se interessem por aquela história que está sendo contada por meio da pintura e se misturem com o tema, e se tornem apreciadores do grafite e até grafiteiros.

Diogo completa:

O grafite é uma linguagem visual onde se desenvolve a arte em si com a criançada, no desenvolvimento social, tanto que eles possam expor os sentimentos deles diante da arte através do bico do spray, nesse desenvolvimento eles aprendem tanto a disciplina de fazer a arte como desenvolve também essa visão da sociedade num todo, quanto a violência…esse tipo de eixo a gente tá discutindo dentro do grafite e também passando através da discussão passa isso para o muro.

Aline fala de uma “magia propiciatória”,

…crença que atribui à imagem o poder mágico sobre um ser, acreditava-se possuir o animal pela retenção da forma, ficando ele vulnerável e à mercê do caçador.

 7. CONCLUSÃO

Foi um bom passeio pela cidade. Das conversas, entrevistas, questionários que realizamos face a face e virtualmente concluímos que as pichações e grafites vieram prá ficar e se expandir. Respondendo às questões enunciadas na introdução deste trabalho, concluímos que a animação e a intenção que movem os autores e produtores dessa expressão é a vontade de transformar a realidade cotidiana que os aprisiona, bem dentro do discurso do rap de Linha Dura e DJ Taba. É a “magia propiciatória” que os move. Ou o trocadilho da imagem/título deste trabalho, A Vida é Bélica. Neste sentido, não tem importância a diferença entre pichação e grafite, embora sejam percebidas pelos entrevistados. Ambas as técnicas, por assim dizer, buscam a interação, reação e cumplicidade com o observador. E assim são percebidas. Foi o que constatamos com as entrevistas das pessoas que generosamente nos cederam as suas opiniões. Esperamos que o artigo contribua para os estudos da cultura e da arte contemporânea de Cuiabá e de Mato Grosso.

8. REFERÊNCIAS

BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção:como a arte reprograma o mundo contemporâneo; tradução Denise Bottmann. – São Paulo : Martins, 2009.

BYSTRINA, Ivan Tópicos de Semiótica da Cultura. Tradução de Norval Baitello Jr. e Sônia B. Castino: São Paulo: Pré_Print PUC/USP http://pt.scribd.com/doc/38563306/BYSTRINA-Topicos-de-Semiotica-da-Cultura-Aula-1-e-2

FIGUEIREDO, Aline. A Propósito do Boi. Cuiabá: Editora da UFMT, 1994.

PAIS, José Machado. Lufa-lufa quotodiana : ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana. Lisboa : ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2010.

http://www.dicio.com.br/grafite/

http://www.dicio.com.br/pichacao/

Vale Cultura, Ouro de Tolo

Posted in Arte Pantanal, Política Cultural, Uncategorized with tags , , , on 06/01/2013 by mariolimpio

Mario Pop (4)Foram dois os lances mais representativos do governo Dilma Rousseff na política cultural em 2012. A mudança de ministras e a sanção da Lei n. 12.761, publicada no Diário Oficial no apagar das luzes dia 27 de dezembro, chamada pelo Ministério da Cultura de Vale Cultura.

No caso da troca de ministras, espero um pouco mais para dizer se a troca foi ou não seis por meia dúzia. O que posso dizer agora é que Ana de Hollanda foi desastrosa politicamente por enfrentar o núcleo histórico do PT e se indispor com setores aparelhados, especialmente na internet, pelo grupo do ex-ministro Juca Ferreira. Isto lhe valeu o cargo prematuramente sem ter ao menos a chance de desenvolver algo que possa ser chamado de política.

No caso da platinada Marta Suplicy é diferente. Ela é do núcleo histórico do PT e vem com o apoio e deslumbre dos aparelhados. Fora isso, é politicamente experiente e não vai meter a mão em cumbuca. No entanto, logo no discurso de posse, pediu que o congresso nacional aprovasse a lei que cria o Vale Cultura demonstrando já aí pouco conhecimento dos meandros administrativos da cultura pública nacional.

A ideia original do Vale Cultura nasce em 1996, copiada de um modelo estadunidense. Está no blog http://valecultura.blog.br/sobre/ mantido pelo MinC. Nesta data Fernando Henrique era o presidente e Francisco Weffort era o ocupante do cargo de Ministro da Cultura. Possivelmente o Vale Cultura foi visto como uma forma de dinamizar e melhor distribuir a captação de recursos públicos do incentivo fiscal, numa alternativa à Lei Rouanet que, todos sabem, nunca foi e nem é eficiente neste quesito. A ideia só vira projeto de lei e é enviado ao Congresso Nacional em 2009, final do governo Lula, sendo aprovado no final deste ano e sancionado pela presidenta.

A sanção da lei foi recebida com euforia pela torcida organizada, como se fosse a última ventrecha de pacú do rio Cuiabá.  Compreensível, se não constatássemos a realidade analisando o Relatório Resumido da Execução Orçamentária do Tesouro da União, disponível em https://www.tesouro.fazenda.gov.br/images/arquivos/artigos/RROout2012.pdf, que mostra com a dureza inexorável dos números que de um total de 1 trilhão e 331 bilhões do total das despesas liquidadas pelo tesouro da união, de janeiro a outubro de 2012,  apenas R$ 550 milhões foram investidos nas atividades do MinC. Ou seja, vergonhosos e assustadores 0,04%. Isto mesmo!

Mas, não basta. Como foi idealizado há mais de uma década, o modelo gerencial do Vale Cultura caducou. É um daqueles benefícios que já nascem mortos, como os programas Fome Zero e o PAC, tão caros quantos ineficientes.

Eu explico. Ou tento. O Vale Cultura tem seu mecanismo de financiamento baseado no incentivo fiscal. O mesmo modelo das leis de incentivo que já deram o que tinham que dar. Funcionaria mais ou menos assim: a empresa operadora passa para a empresa beneficiária que passa para o usuário que passa para a empresa recebedora (!). Sim, e assim que está na Lei. Kafka jamais imaginaria trama tão bem engendrada.

Traduzindo, para o benefício chegar ao trabalhador primeiro a empresa beneficiária teria que se inscrever e aderir espontaneamente ao programa. Depois, há uma empresa operadora que iria operar – verbo por si só bastante estranho – o Vale Cultura que depois chegaria às mãos do usuário e ele só poderia gastar o vale nas empresas recebedoras, que também teria que ser cadastrada no MinC. Se o benefício chegar, a empresa que aderiu e distribuiu os vales entre seus empregados poderá descontar do salário do trabalhador até 10% do valor do vale.

Sabe quando vai funcionar? Nunca.

O exercício das leis de incentivos, desde a Sarney no longínquo ano de 1985, passando pela Rouanet e, aqui em Mato Grosso, pela Lei Hermes de Abreu e o Fundo de Fomento à Cultura, mostra que o empresário não investe em cultura se não for para obter lucro nas suas atividades comerciais. É normal e é assim que funciona no mundo capitalista.

Mas, as confusões não param por ai. Só poderiam entrar no programa as empresas que declaram lucro real no imposto de renda. E ainda assim, só poderiam investir até 1% do total do imposto devido. Ou seja, esqueçam as empresas de Mato Grosso e no restante do Brasil profundo. É um programa para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador. E olha lá. Considerando o histórico da Lei Rouanet, nem nesses centros urbanos a lei teria eficácia.

O que mais me deixa acabrunhado é a maneira festiva como a sanção da lei foi recebida por certos grupos e coletivos independentes. Os artistas, produtores, agentes e animadores culturais já foram mais engajados e inconformados. Será que foram domesticados?

Por mim acho que cabe menos bajulação e mais trabalho. Como diz Raulzito, na letra cujo título empresto: eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar…

nada como um dia após o outro

Posted in Uncategorized on 27/12/2012 by mariolimpio

Caules 1 menorPor Uma Política Pública de Cultura

Os momentos políticos eleitorais costumam ser propícios para formulações de manifestações públicas nas mais diversas áreas do desenvolvimento humano.

Em Cuiabá, o candidato Mauro Mendes ganhou a eleição para prefeito da cidade. Tão logo tivemos confirmados os resultados das eleições, sinais foram emitidos por parte da equipe de transição do futuro prefeito quanto aos caminhos da nova administração a partir de 2013.

No campo da cultura houve a clara sinalização de que o futuro chefe do executivo municipal entendia como melhor opção a fusão das pastas da cultura e do turismo, criadas em momentos diferentes e com desenvolvimento diferentes ao longo do tempo.

Um grupo de agentes culturais se manifestou, primeiro por meio da internet e depois em duas reuniões presenciais no auditório do centro cultural da UFMT. Da primeira participou o senhor Gustavo de Oliveira, coordenador geral da transição da gestão municipal e outros colaboradores do prefeito eleito e houve amplo e completo repúdio à ideia da fusão das secretarias, tendo por base os germinais sistema e plano nacionais de cultura que têm como um dos princípios a autonomia das políticas de cultura em todos os níveis de governo.

Na segunda reunião o grupo decidiu que, independente da decisão do futuro prefeito em fundir ou não as secretarias, um coletivo seria formado com o apoio do Conselho Estadual de Cultura que tinha presentes os conselheiros Johnny Everson e Rômulo Fraga, com o objetivo específico de auxiliar os governos municipais do estado de Mato Grosso a construir colaborativa e independente os seus planos municipais de cultura ao longo do ano de 2013, inserido no calendário proposto pela política de integração nacional.

Diante deste breve histórico e em face das recentes declarações públicas do prefeito eleito sobre o tema, propomos:

a)      Abertura ampla da discussão em grupos formados na internet, com o objetivo de construir coletivamente um documento consensual para ser apresentado ao prefeito eleito, como colaboração desinteressada da comunidade cuiabana para as políticas de cultura;

b)      Que deste documento conste a imediata constituição do grupo precursor composto por quem assim desejar para pesquisar, estudar, planejar e propor a construção do Plano Municipal de Cultura de Cuiabá, com publicação de edital para a abertura de conferência para este específico fim, possibilitando a participação efetiva da sociedade cuiabana na elaboração dos objetivos e metas para os próximos anos;

c)      Que conste da manutenção da Secretaria Municipal da Cultura;

d)     Que conste da composição democrática do Conselho Municipal de Cultura, com maioria dos membros da sociedade civil;

e)      Que conste da manutenção e ampliação da autonomia do Fundo Municipal de Cultura;

f)       Que conste da manutenção e ampliação do sistema de editais públicos para distribuição dos recursos orçamentários;

g)      Que conste da garantia de realização de pelo menos uma Conferência de Cultura a cada quatro anos;

h)      Que conste do aumento gradativo do orçamento da cultura até alcançar um mínimo de 1% (um por cento) do orçamento geral do município;

i)        Que conste do estímulo às parcerias com o mercado e a sociedade civil organizada; entre outros.

Esperamos, desta forma, estar contribuindo, como faço há 25 anos, para a organização da política cultura em Cuiabá e no Estado de Mato Grosso.

Porque somos contra o projeto do Código Florestal.

Posted in Arte Pantanal, Partido Verde MT, Ruas de Cuiabá, Uncategorized with tags , , , , on 25/05/2011 by mariolimpio

O movimento Transição Democrática do Partido Verde de Mato Grosso vem se juntar à bancada federal do Partido, a 10 ex-ministros de meio ambiente, à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, à Associação Brasileira de Ciência – ABC e a centenas de organizações da sociedade e movimentos sociais no Brasil, para repudiar as alterações que estão sendo propostas no Código Florestal, através do relator, Dep. Aldo Rebelo.

Os pontos de maior discordância são:

1. Permite que imóveis com até 4 módulos fiscais (400 há) não precisem recuperar sua reserva legal, abrindo brechas para fracionamento e para uma isenção quase generalizada, que poderá fazer com que mais de 90% dos imóveis do país sejam dispensados de recuperar suas reservas legais.

2. Incentiva novos desmatamentos, ao permitir que um desmatamento irregular feito hoje (ou no futuro) em área de reserva legal possa ser compensado em outra região ou recuperado em 20 anos com o uso de espécies exóticas em até 50% da área.

 3. Considera como área rural consolidada e, passível de legalização, desmatamentos ilegais ocorridos até 2008. Isso significa que, somente nos biomas Amazônia e Cerrado, a legalização de mais de 40 milhões de hectares desmatados após 1998.

 4. Manguezais e veredas deixam de ser considerados áreas protegidas, abrindo espaço para que sejam drenadas e ocupados, sem qualquer controle, por atividades agropecuárias.

 5. Retira poder Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA – órgão colegiado com participação da União, Estados, Municípios e sociedade civil – ao impedir que possa regulamentar as hipóteses de supressão de vegetação nativa em APP.

 6. Permite a recuperação de apenas 15 metros de matas ciliares ao logo dos rios menores, enquanto hoje é de 30 metros. Estudo realizado pela SBPC indica que essas áreas são de fundamental importância para a qualidade da água e sobrevivência de muitas espécies de fauna e flora, e que a faixa atual – que se pretende diminuir – já é insuficiente para garantir a maior parte dos serviços ambientais esperados dessas áreas.

 7. Permite pecuária em topos de morro e encostas ocupadas até 2008, atividade que hoje é uma das principais causas de erosão e desastres ambientais nessas áreas.

 8. Permite que a reserva legal na Amazônia seja diminuída mesmo para desmatamentos futuros, ao não estabelecer, um limite temporal para que o Zoneamento Ecológico Econômico autorize a redução de 80% para 50% do imóvel.

 9. Abre brecha para que municípios possam autorizar desmatamento, o que levaria a uma total falta de controle da política florestal brasileira e a “explosão” do desmatamento

 10. Não incorpora novos instrumentos econômicos de promoção à recuperação e conservação ambiental, ao mesmo tempo em que não traz novos instrumentos para controle do desmatamento.

 11. Estabelece um conjunto de flexibilizações e anistias para quem descumpriu a lei, o que dificultará imensamente o controle por parte dos órgãos ambientais e incentivará o desmatamento, como já está acontecendo.

Posted in Uncategorized on 13/05/2011 by mariolimpio

Poesia "concreta".

Integra do email do MinC em apoio à Ministra de Cultura.

Posted in Uncategorized on 11/05/2011 by mariolimpio

Nós, secretários e dirigentes do Ministério da Cultura, viemos manifestar à sociedade brasileira e aos movimentos artísticos e culturais nossa coesão em torno de um projeto político de cultura liderado pela Ministra Ana de Hollanda na gestão da Presidenta Dilma Roussef.

Repudiamos a forma como o Ministério da Cultura vem sendo atacado por aqueles que insistem em não reconhecer o diálogo e as ações concretas empreendidas nesses primeiros 120 dias de trabalho.

Reconhecemos e respeitamos as diferenças e posições, mas afirmamos que esse processo deve sempre ser orientado pela defesa dos melhores valores culturais, como a ética, o respeito e a solidariedade.

Estamos unidos em torno de Ana de Hollanda e pelo avanço da política pública de cultura no Brasil.

Vitor Ortiz
Secretário-Executivo do MinC

Ana Paula Santana
Secretária do Audiovisual do MinC

Cláudia Leitão
Indicada Secretária de Economia Criativa do MinC

Henilton Parente de Menezes
Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC

João Roberto Peixe
Secretário de Articulação Institucional do MinC

Marta Porto
Secretária de Cidadania Cultural do MinC

Sérgio Mamberti
Secretário de Políticas Culturais do MinC

Antônio Grassi
Presidente da Funarte

Eloi Ferreira
Presidente da Fundação Cultural Palmares

Galeno Amorim
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional

José do Nascimento Junior
Presidente do Ibram

Luiz Fernando de Almeida
Presidente do Iphan

Manoel Rangel
Presidente da Ancine

Wanderlei Guilherme dos Santos
Presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa