Arquivo para Grafite

A Vida É Bélica

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 16/01/2013 by mariolimpio

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RESUMO

Este artigo tem o objetivo de enxergar como os grafites e as pichações são percebidas nas ruas de Cuiabá. Entrevistamos por meio de questionários enviados e recebidos via internet e face a face três grupos de pessoas: os grafiteiros e produtores de grafites; gente do mundo da arte e da publicidade; e transeuntes, andantes, caminhantes, convivas e usuários das praças públicas da cidade.

Temos como hipótese que os grafites são uma das formas de arte contemporânea mais presentes na cidade e que as pessoas envolvidas na sua produção buscam formas de interagir  para transformar realidades sociais.

Fomos buscar referências entre teóricos do campo da filosofia, sociologia, semiótica da cultura, história e do mundo da crítica de arte.

Esperamos que o resultado contribua para os estudos da cultura e da arte contemporânea de Cuiabá e Mato Grosso.    

 

“Só acredito no semáforo

Só acredito no avião

Eu acredito no relógio

Só acredito

Eu só acredito”

(Semáforo, Hélio Flanders, Vanguart)

1. INTRODUÇÃO

Depois de algum tempo longe da academia, minha graduação deu-se num longínquo 1993, voltei aos bancos da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT admitido para o mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea, do Instituto de Linguagem. É certo que entre a graduação e o mestrado cursei uma especialização em Planejamento e Gestão Cultural (2002-2003) – coordenada pela Associação dos Produtores Culturais de Mato Grosso – na Universidade de Cuiabá – UNIC. Diferente da especialização que se propunha à formação profissionalizante, o mestrado propõe-se à formação acadêmica, fato que me exige disciplinas pouco comuns ao meu cotidiano, de advogado, produtor cultural e ativista das políticas de cultura.

Veio da professora doutora Juliana Abonízio da disciplina Subjetividade, Cotidiano e Pós-Modernidade a proposta valendo nota como trabalho de conclusão de um artigo que abordasse os textos discutidos em sala de aula ao longo do período semestral. Depois de muito ir e vir, mais dúvidas que certezas, escolhi pesquisar sobre os grafites exibidos nas ruas de Cuiabá no período de 2005 até os dias de hoje.

Os grafites são presenças recentes nas ruas de Cuiabá e Várzea Grande, cidades que formam uma só conurbação com 804.059 habitantes (IBGE, 2010), unidos pelo rio Cuiabá. É mais comum aos olhos das pessoas que transitam pelas veias públicas a visão de desenhos e pinturas produzidas por artistas plásticos em prédios, arrimos, muros, viadutos, postes e até em carrocerias de ônibus do sistema de transporte coletivo urbano. A presença das artes visuais em espaço público e aberto em Cuiabá remonta aos anos 70. Grafites e pichações surgem no final da década de 90 e ganham evidência no espaço urbano somente durante os anos 00, quando Cuiabá e Várzea Grande experimentam índices elevados de crescimento demográfico, acima da média nacional. Este é o período que interessa a este artigo.

Desde meados da década começamos a registrar em fotografias as variadas formas de expressões grafiteiras estampadas na cidade. O que começou como uma espécie de registro diletante e descompromissado bem ao estilo do flâneur de Baudelaire (1821-1867) e Poe (1809-1849) acabou como indagações que transformamos nas perguntas que estimularam o artigo: qual a animação e a intenção dos autores e produtores dos grafites? Qual a diferença entre pichação e grafite? Como os grafites são percebidos pelas pessoas, transeuntes, passantes, viventes, usuários, convivas das ruas de Cuiabá?

 Para tentar resolver o problema fomos buscar em Rudio (2007, p. 114) a metodologia. Por meio das mídias sociais na internet, especialmente email e comunicadores instantâneos como o Messenger e o facebook, enviamos questionários e recebemos respostas, além das entrevistas orais, face a face. Entrevistamos 30 pessoas divididas em três grupos: os produtores de grafites, compreendidos aqui os artistas e entidades, como a Central Única das Favelas em Cuiabá – CUFA, que tem no grafite um elemento de trabalho; pessoas do mundo da arte e da publicidade; e, caminhantes colhidos ao acaso nas imediações de muros, paredes, postes, suportes, enfim, locais, endereços, lugares, entorno, proximidade, espaços de circulação e trânsito utilizados para a grafitagem. No corpo do artigo, as opiniões serão apresentadas como recebidas, portanto com formatos diferentes entre as colhidas textualmente e as colhidas oralmente. Iremos mostrar, ainda, algumas imagens que contribuam para o desenvolvimento do tema.

No desenvolvimento iremos abordar a dimensão artística, estética, poética e as subjetividades do grafite. Também, até por força das nuances das falas dos entrevistados, trataremos de estilos e autores, mercado e mercadores. No entanto, para o artigo, interessa muito mais a dimensão social dessa expressão, muitas vezes coletiva e anônima.

Como hipótese que levantamos antes das entrevistas, transcrição, análise e desenvolvimento do artigo, imaginamos que não somos todos flâneurs. As percepções são diferentes e plurais. Quais são, então, essas percepções? Como exercício e direção, lembramos de PAIS (2010,20) que

A arte, por exemplo, não nos fala apenas da sua estética, informa-nos também das correntes socioculturais que a possibilitam. Há que interrogar as imagens, entrevendo-as como mediadoras entre imaginários e estruturas sociais. Na arte como na vida – mesmo a da lufa-lufa quotidiana – as coisas não são apenas o que são mas também o que significam. PAIS (2010, 20).

2. A ARTE NAS RUAS DE CUIABÁ

Quando falamos em arte queremos dizer artes visuais, assim compreendidas as artes plásticas, pintura, desenho, escultura e fotografia, e quando falamos em ruas queremos dizer espaços urbanos, externos, de acesso público e gratuito. Se fôssemos nos dedicar às outras manifestações o tamanho de um artigo seria pequeno. Mas, precisamos dizer de uma característica que mesmo o crescimento demográfico não conseguiu inibir: a vocação que Cuiabá tem de festejar nas ruas. Neste período de junho e julho pipocam festas de santos em todos os lugares. Bairros, chácaras, comunidades rurais, cidades menores nos arredores da conurbação. Festas que começam e terminam nas ruas. É usual ver e ouvir pelas ruas centrais a “bandeira de São Benedito” em procissão com músicos e fiéis arrecadando esmola para a maior e mais antiga festa de santo de Cuiabá. Nestas festas, atrações certas são o cururu e o siriri, expressões artísticas que nasceram nos quintais e se estenderam pelas ruas.

Cuiabá tem fama de animada vida noturna. Esta fama é muitas vezes creditada ao sol e ao calor, que estimulam as pessoas a saírem de casa e irem para rua até a temperatura baixar, o calor diminuir e aí sim voltar para casa e dormirem tranqüilas. Do sol também parece ser o mérito quando o tema é arte na rua e vem daí o apelido “cidade verde” herdado dos tempos em que os quintais eram predominantes nas casas da zona central.

Nas artes visuais, coube ao artista plástico Humberto Espíndola inaugurar em Cuiabá a técnica de ampliar e transportar uma obra para o espaço público dos murais e paredes externas, ao planejar e executar em mármore, granito e pintura o painel Faces I e II, medindo 371m², nas paredes do Palácio Paiaguás, sede do Governo do Estado de Mato Grosso, em Cuiabá no ano de 1975, portanto três anos antes de divisão do estado, ocorrida em 1978. Em meados dos anos 80 artistas e produtores culturais parecem despertar para essa vocação e começam um movimento de ocupação dos espaços públicos. Viadutos, arrimos, postes de iluminação, prédios e muros das principais avenidas são invadidos e transformados em obras de arte com símbolos, ícones e figuras criadas e executadas por Adir Sodré, Gervane de Paula, João Sebastião, Dalva de Barros, Sebastião Silva, Marcelo Velasco, Julio Cesar, Nilson Pimenta, Maurílio Barcelos, Jonas Barros, artistas atuantes e consolidados no meio cultural mato-grossense. Com a participação de pintores publicitários, experientes na técnica de ampliação e reprodução em superfícies irregulares e material industrial como cimento, concreto e metais, no periodo pré-coreldraw, os artistas chegaram a levar as suas obras para carrocerias de ônibus do transporte coletivo urbano de Cuiabá. Esta tendência se estende até os dias de hoje e o espaço urbano se transformaria num valioso suporte de exposição, circulação, difusão e consumo das artes contemporâneas.

No entanto, se as artes visuais encontram rápida aceitação e mesmo apoio oficial do governo e proprietários de espaços públicos, o caminho da pichação e do grafite não é o mesmo. Aliás, o grafite, tal como hoje vemos, só começa a aparecer nas ruas de Cuiabá a partir do fim dos anos 90 e início da década 00. Não por acaso logo após a conurbação experimentar o maior crescimento demográfico da sua história. Em 1970, Cuiabá e Várzea Grande tinham 119.011 (IBGE) habitantes, saltando para 698.644 em 2000 (IBGE) e chegando a 803.694 em 2010 (IBGE).

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 3. PICHAÇÃO E GRAFITE

Em Cuiabá, os primeiros grafites surgem com a transformação urbana. A crítica de arte Aline Figueiredo traça esse paralelo:

o grafite chegou em Cuiabá porque Cuiabá cresceu barbaridade. Ficou urbana de repente. E o grafite, prá mim, é uma arte puramente urbana, uma arte de um desejo urbano, de uma manifestação urbana e do anonimato.

Júlio Carcará, artista circense, lembra que:

 primeiro, era anonimato porque nem era interessante que aparecesse, era marginal. O cara ia lá fazer um protesto num muro e era melhor fazer no anonimato, era meio pirata mesmo.

Esta observação permite uma primeira comparação entre pichação e grafite. Encontramos no dicionário as definições para ambos os verbetes. Pichação aparece como:

 s.f. Ato ou efeito de untar com piche; pichamento. Inscrição feita à mão, com pincel ou freqüentemente aerossol (p. ex., num muro de cidade, na parede de um prédio etc.); grafite. Ling. inform. Ato de falar mal de alguém; censura.

 E Grafite aparece como:

s.f. Forma corrente de grafita, especialmente nas aplicações industriais desse mineral. Lápis. art. gráf. e art. Des. Bastonete que serve para obtenção de efeitos de luz e sombra nos esboços de desenho; esfuminho. Inscrição ou desenho rabiscados à mão sobre um muro, uma parede, uma estátua etc.; pichação.

É claro que não é da natureza dos dicionários aprofundarem em análises além das palavras, mas é inegável que nos mostram rumos, caminhos, dicas para alcançarmos o que procuramos. A primeira dica é que grafite e pichação são sinônimos. A segunda é de que o suporte é o mesmo, ou seja, muros, paredes das cidades, mas encontramos algo que os diferencia de maneira objetiva. A pichação segundo o dicionário seria também ato de falar mal de alguém; censura. Definições não atribuídas ao grafite.

Saímos às ruas de Cuiabá e perguntamos qual a diferença entre um e outro e o resultado se assemelha àquele proposto pelo dicionário consultado.

Julio Bedin, publicitário, disse que:

no sensorial, pichação me vem como o sujo, o underground, o feio, o transgressor, a raiva, mas ao mesmo tempo, o pai de todos, como se ali fosse uma origem. O grafite me vem como o permitido, o autorizado, a manifestação de pensamento programada, até mesmo um tampão para se maquiar um lugar feio, abandonado. Uma obra comprada, quase que um mecenato, uma encomenda. Basicamente, pra mim, a diferença entre um e outro é que um tem a liberdade transgressora e o outro a liberdade vigiada.

A estudante Giulia Medeiros diz:

Acho que o grafite é uma expressão artística e a pichação ela vem de uma maneira mais prá agredir a sua visão a sua sensibilidade de enxergar a coisa. Ela vem prá impor alguma coisa, impondo. E a arte não, ela vem mostrando de um jeito mais singelo, mais sensível, com sensibilidade, a parte bonita da vida.

Quando perguntada qual a expressão que percebia da pichação, disse:

É um jeito que as pessoas usam para colocarem a opinião deles de alguma forma. Serem ouvidos por aquilo que eles pensam, ou que eles concordam ou não. Tem a linguagem deles, mas particularmente é uma coisa que não me agrada olhar. Acho que é uma coisa que polui a visão da cidade em vez de melhorar.

Diogo Rodrigues, grafiteiro e designer gráfico da Central Única das Favelas em Mato Grosso, CUFA-MT, responsável pela condução dos programas da entidade para a área do grafite, coloca mais elementos à discussão:

Bem, primeiramente algumas pessoas vêem com bons olhos, vê: “nossa, é arte!” e tal, algo diferente, que elas não conhecem também, mas às vezes têm outras pessoas…como outros grafiteiros que tem uma agressividade no sentido de expor os sentimentos deles dentro da arte que eles faz…isso daí as vezes as pessoas vêem como poluição…principalmente pichação…tem aquele sentido de pichação como grafite, entre grafite e pichação…um e outro….aí fala que a pichação é mau e o grafite é bom, é bonito… enfim, mas, a pichação também leva um certo tipo de sentimento para a sociedade, só que ela não é vista com bons olhos pela sociedade, entendeu…

Fomos nos socorrer na Wikipedia e encontramos conceitos que compartilham as opiniões dos nossos entrevistados, mas chamou-nos a atenção a variedade de verbetes, gírias e idéias associadas ao grafite: 3D, Asdolfinho, Backjump, Bite, Bombing, Bubble Style, Cap, Characters, Crew, Cross,Degradé, End to end, Fill-in, Hall of Fame, Highline, Hollow, Inline, Kings, Outline, Roof-top,Spot, Tag, Throw-up, Top to bottom, Toy, Train, Whole Train,Wild Style, Writer.

Pichação ou grafite, grafite e pichação, essas formas de expressão ganharam as ruas de Cuiabá. E o que elas querem dizer?

4. POLÍTICA E PROTESTO

O crescimento demográfico da pequena metrópole não passaria incólume. Nascida da febre do ouro de aluvião, farto e de fácil coleta, a cidade de Cuiabá prosperou sem nenhuma forma de planejamento. No seu último ciclo de crescimento, do qual trata este artigo, fruto da marcha para o Brasil profundo, estimulado pela construção de Brasília no Planalto Central, Cuiabá não estava preparada para receber tantas e tão diversas pessoas. Da infra-estrutura até os mais elementares serviços públicos como saúde, educação, segurança, lazer, cultura, desportos são prestados com deficiência e improviso pelos órgãos dos governos municipal, estadual e federal.

O crescimento demográfico veio acompanhado do crescimento econômico, mas também da desigualdade na distribuição de rendas. Cuiabá aparece como a 44º cidade mais rica do Brasil (PIB-IBGE-2010), mas ocupa o 380º lugar quando o tema é o equilíbrio entre emprego e renda, educação e saúde, pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM-2010) e figura em 214º pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-2010).

A ocupação urbana reflete esses números. O perímetro urbano de Cuiabá se alargou e hoje já são mais de 240 bairros, a imensa maioria excluídos dos benefícios das políticas desenvolvidas pelos governos. Natural que as pessoas se manifestem politicamente contra esta realidade.

A arte urbana é um desses veículos de manifestação. O rapper Linha Dura e o DJ Taba, cuiabanos, moradores de bairros periféricos, ativistas da política cultural, um na CUFA e outro na Favela Ativa, assinam uma espécie de manifesto na canção Direção, que abre o disco da dupla.

Tô de rolê e tenho uma direção

Para o governo eu ando na contramão

Poder paralelo, sempre acreditei.

No volante é o rap

Acelera aí DJ Taba

Faz squash nas bolachas meu baú é destino para o Alvorada

Logo de manhã faço a minha oração

Sandália de fogo prá pisar em escorpião e serpente

Vc está contente?

O burguês com um milhão e você aí carente

Com 300 contos de salário?

Não tem posto de saúde nem asfalto no seu bairro.

Subiu a poeira quando passa o busão

Entrou na sua goma e sujou seu coração

Político ladrão tem um monte na assembléia

Deus acaba logo com essa nova era,

Cospe fogo na Assembléia,

Nos assassinos sociais,

Deixa no barraco, sem luz e sem gás, sem dinheiro

Só prá sentir o drama do bagulho.

Não existe amor em quem direciona o mundo.

Direção?

Direção/amor.

Então, direção, poder, diferenças…

A favela tá na direção.

Gurizão não diminui…

Quem?

Vc mesmo!

Jogue fora a muleta do auto desprezo.

Ande com as suas próprias pernas e seja sábio.

O rico não é melhor.

Deus fez nós do mesmo barro.

Entusiasmo prá seguir no objetivo.

Um beijo pras mães solteiras que cuidam dos seus filhos.

O pai tá vivo mas, fica quieto, vira o disco.

A corrida é de rato, assim é o capitalismo.

Eu dirijo rumo ao sucesso.

Não agüento mais ver desordem nem regresso.

Ficar esperto.

Você tá no labirinto, não viaja na etiqueta o artista tá te iludindo.

Eu não tô nem aí pros playboys do Santa Rosa, lá do Schangri-lá e também do Califórnia

Cês tão na roça

Jesus veio para o gueto

Lembro da história da agulha e do camelo

Meu pensamento, na moral, é estratégico

Do boy só quero a grana do povo periférico

Aí sonhador, vai, muda a sua história

A direção é toda sua

Rumo à vitória.

   Karina Santiago, vice-presidente nacional da CUFA, cuiabana, diz o que é o grafite para a entidade:

é mais uma das linguagens da CUFA de diálogo com a juventude. As suas cores, formas e o próprio processo de produção, uso do spray e muros, atrai a juventude e incentiva a criatividade. O fato das intervenções de grafite formarem indiretamente uma grande galeria a céu aberto, aproximando a arte do dia a dia das pessoas, vista na rua, nos ônibus, durante uma pedalada de bicicleta, torna a arte mais pública e conseqüentemente, toca e informa a cidade sobre os diversos temas.  O fato de o grafite alinhar a sua produção estética às causas para o desenvolvimento social de comunidades e favelas e elevação da auto-estima da população negra, são também elementos de importância  para a Central Única das Favelas.

A catadora de material reciclável Gislene Pereira Barros, entrevistada na avenida Lavapés, em frente a um dos murais com desenhos executados por grafiteiros convidados pela CUFA parece entender a idéia:

Sou catadora de materiais recicláveis, faço parte da associação, estou registrada em São Paulo…estou falando do grafiado porque eu acho que essa técnica é uma forma de divulgar também os catadores, porque se  mostrar no impacto ambiental, quanto o óleo… quantos litros de água pode poluir no rio…se a dona de casa juntar seu material ela vai tá diminuindo a incidência de dengue no seu próprio espaço….

Com desenvoltura, Gislene acrescentou mais um verbete ao grafite: grafiado. Perguntei de onde ela havia tirado a palavra e ela:

(…) não sei se é o certo ou não. Não sei se é o correto falar, mas eu acho mais lógico falar desse jeito, não sei se é o correto…Eu acredito que a técnica de grafite ou grafiado vai ser uma forma de captar mais a atenção do povo. Porque às vezes as pessoas não prestam atenção no que as pessoas falam. Mas, imagem capta mais atenção das pessoas e vai ser uma forma de, querendo ou não, conscientizar a população.

Sobre a vantagem que a imagem leva sobre a fala, aqui a catadora entende como PAIS (2010, 43) quando diz:

Toda essa sinalética nos dá conta da primazia da imagem sobre a fala ou, melhor, da relevância da imagem que fala, de uma fala muda que comunica através da imagem…

O antropólogo português está a falar do paradigma do encontrão, e continua, falando do seu conterrâneo o poeta Fernando Pessoa que quando:

realizou o seu primeiro passeio de automóvel, o que mais o surpreendeu, na velocidade, foi o sentimento do desaparecimento rápido das coisas: da rapariga imaginada à janela de um casebre à perda de si mesmo. PAIS (2010, 35).

Com a devida licença poética, as pichações e os grafites estão desafiando o achatamento da realidade que torna as cidades mais opacas. E cada um vê o que pode. Valdinei, vendedor ambulante de salgados, pedalando sua bicicleta com uma caixa térmica de isopor na garupa, abordado por mim sobre o que achava da pintura no muro, não titubeou e soltou um rápido: horrível. E quando se ele sabia a diferença entre grafite e pichação, observou, impávido:

 Qualé a pichação? Isso não é pichação? Isso é arte ou o que é que é? Pois é, eu acho esquisito demais isso aí. Acho que deveria ser mais bonito, né? Sei lá, um guri fumando droga ali…

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Mas, nem tudo é protesto, ou feio, ou sujo, ou agressivo. Um grupo anônimo chamado 7 Anões da Lata nascido no ambiente da Universidade Federal é um dos mais ativos no período. Usando a técnica da máscara ou estêncil executam uma arte expressionista, com desenhos bem delineados e com uma linguagem que se aproxima muito mais da crônica que do protesto. Parece querer mostrar muito mais a técnica e a citação reproduzindo retratos de ícones da música, pintura, cinema e objetos pinçados do imaginário pop.

No entanto, não deixam de lado o caráter propositivo da expressão. Quando da Marcha da Liberdade, uma manifestação em apoio à descriminalização da maconha e às outras causas menos visíveis, a cidade amanheceu com desenhos grafitados em pontos estratégicos, chamando para a manifestação, mostrando um aparelho de televisão e no quadro da imagem as palavras marche, lute.

Num ponto de ônibus da avenida São Sebastião, em frente à praça Santos Dumont, ao fundo uma dessas imagens grafitadas, entrevistei a acupunturista Vânia Benício:

Esse é interessante! É uma televisão, né, e “marche” e “lute” parece que é o que trás assim: ó não se entregue, você tem que correr atrás do que você acredita, do que você quer…é interessante esse aí…é até legalzinho…pequenininho…

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5. ARTE CONTEMPORÂNEA

Valdinei e Vânia que não se enganem. Eles estão frente a frente com a arte contemporânea. Aline Figueiredo, em entrevista face a face, nos diz:

A arte contemporânea que pegou essas frases, essas coisas, ou frase ou figura. E como a arte contemporânea é aberta a todas as manifestações, a todas as impressões, ela incorporou também esse dado. O grafite sempre existiu desde a pré-história, a idade média. Nós, os contemporâneos que consideramos que esse seja um veículo de arte midiático.

Tem toda uma aceitação, tem o muro, tem o espaço. São artes plásticas e as artes plásticas acontecem no espaço. A música acontece no tempo. As artes plásticas no espaço. Você tem que dar um espaço, e aí eles enjoaram de só escrever aquelas letrinhas tipo góticas e vai ganhando uma personalidade de você desenhar com expressividade, com a expressão de chegar. Então você vê que qualquer pessoa  tanto da periferia quanto do centro já ganhou aquela expressiva,  já ganhou aquela força expressiva de desenhar. Aquilo já é domínio público.  O próprio desenho já virou um direito público. O fato deles desenharem, e cada vez mais bonito, eles estão percebendo a beleza que tem isso. E eles se apropriam de todos os signos da cidade.

Nicolas Bourriaud, em seu Pós-Produção, discorrendo sobre os espaços da arte contemporânea, fala:

É o socius, ou seja, a totalidade dos canais que distribuem e repercutem a informação, que se torna o verdadeiro local de exposição para o imaginário dos artistas dessa geração. O centro de arte ou a galeria são caso particulares, mas fazem parte de um conjunto mais amplo: a praça pública. (…)

E alerta,

Dessa forma, não se trata de opor a galeria de arte (local da arte “separada”, portanto, mau) a um espaço público idealizado como local do “bom olhar” sobre a arte, o olhar dos transeuntes, ingenuamente fetichizados tal como antes se idealizava o “bom selvagem”. A galeria é um local como os demais, um espaço imbricado num mecanismo global, um acampamento de base indispensável a qualquer expedição. Um clube, uma escola ou uma rua não são lugares melhores, são simplesmente outros lugares para mostrar a arte.

Diogo Rodrigues comemora:

hoje em dia o grafite, tanto em São Paulo, ele é bem visto dentro das maiores mostras de artes plásticas do mundo. E aqui está caminhando prá esse ponto. Hoje tem um grafiteiro que estava fazendo um work shop há pouco tempo lá no Sesc (Arsenal)…saiu fora da rua prá entrar prá dentro de algo mais centralizado, ou seja não é só prá periferia, de certa forma a elite está conseguindo digerir isso também.

6. MAGIA PROPICIATÓRIA

Assim Aline Figueiredo começa o seu A Propósito do Boi:

Recuado no tempo, há 40 mil anos, o Homo Sapiens observa curioso as linhas sinuosas das paredes de cavernas recobertas de argila. Percebe que aquelas linhas soltas pela grafia natural se assemelham aos dorsos dos animais. Encantado, brinca com os dedos sobre esses sulcos maleáveis, quer completar o desenho sugerido. Assim, de tentativas e tentativas, um dia ele controlará os traços até chegar à figuração das formas.

Na apostila apresentada na disciplina de Semiótica da Cultura, professora doutora Lucia Helena Possari, vamos ler que Bystrina, em Tópicos de semiótica e cultura diz que “Na sua origem (a cultura), duas esferas são subumanas: o sonho e o jogo ou brincadeira. As demais esferas surgiram no âmbito mesmo da cultura”.

E sobre o sonho, escreve:

Os mitos nos mostram a grande influência que o sonho tem sobre a cultura. Existe um mito compartilhado por aborígenes australianos que evidencia a força criativa do sonho. Nele, o sonho exerce o papel de criador, é o próprio momento da criação de tudo o que existe. Os primórdios da criação, quando todos os seres surgiram, é designado por esses aborígenes como o “Tempo dos Sonhos”. Na sua narrativa, os primeiros seres sonhavam as plantas, os animais; depois desenhavam seus sonhos em rochas e lhes davam a alma. A partir dos desenhos na rocha, os seres adquiriram corpo, materialidade.

Karina Santiago, quando perguntada o que eles esperam quando fazem os grafites, diz:

Após a produção de um mural grafitado espera-se que as pessoas sejam sensibilizadas com as cores, com as formas, que se interessem por aquela história que está sendo contada por meio da pintura e se misturem com o tema, e se tornem apreciadores do grafite e até grafiteiros.

Diogo completa:

O grafite é uma linguagem visual onde se desenvolve a arte em si com a criançada, no desenvolvimento social, tanto que eles possam expor os sentimentos deles diante da arte através do bico do spray, nesse desenvolvimento eles aprendem tanto a disciplina de fazer a arte como desenvolve também essa visão da sociedade num todo, quanto a violência…esse tipo de eixo a gente tá discutindo dentro do grafite e também passando através da discussão passa isso para o muro.

Aline fala de uma “magia propiciatória”,

…crença que atribui à imagem o poder mágico sobre um ser, acreditava-se possuir o animal pela retenção da forma, ficando ele vulnerável e à mercê do caçador.

 7. CONCLUSÃO

Foi um bom passeio pela cidade. Das conversas, entrevistas, questionários que realizamos face a face e virtualmente concluímos que as pichações e grafites vieram prá ficar e se expandir. Respondendo às questões enunciadas na introdução deste trabalho, concluímos que a animação e a intenção que movem os autores e produtores dessa expressão é a vontade de transformar a realidade cotidiana que os aprisiona, bem dentro do discurso do rap de Linha Dura e DJ Taba. É a “magia propiciatória” que os move. Ou o trocadilho da imagem/título deste trabalho, A Vida é Bélica. Neste sentido, não tem importância a diferença entre pichação e grafite, embora sejam percebidas pelos entrevistados. Ambas as técnicas, por assim dizer, buscam a interação, reação e cumplicidade com o observador. E assim são percebidas. Foi o que constatamos com as entrevistas das pessoas que generosamente nos cederam as suas opiniões. Esperamos que o artigo contribua para os estudos da cultura e da arte contemporânea de Cuiabá e de Mato Grosso.

8. REFERÊNCIAS

BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção:como a arte reprograma o mundo contemporâneo; tradução Denise Bottmann. – São Paulo : Martins, 2009.

BYSTRINA, Ivan Tópicos de Semiótica da Cultura. Tradução de Norval Baitello Jr. e Sônia B. Castino: São Paulo: Pré_Print PUC/USP http://pt.scribd.com/doc/38563306/BYSTRINA-Topicos-de-Semiotica-da-Cultura-Aula-1-e-2

FIGUEIREDO, Aline. A Propósito do Boi. Cuiabá: Editora da UFMT, 1994.

PAIS, José Machado. Lufa-lufa quotodiana : ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana. Lisboa : ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2010.

http://www.dicio.com.br/grafite/

http://www.dicio.com.br/pichacao/

Fantasiados Famintos

Posted in Arte Pantanal, Ruas de Cuiabá with tags , , , on 14/06/2011 by mariolimpio

Insetos Fantasiados Resistem Famintos.

Caetano ou João?

Posted in Arte Pantanal, Ruas de Cuiabá with tags , , , on 06/06/2011 by mariolimpio

Caetano ou João. No muro da UFMT/IL. Ponto de ônibus.

Rastafari anônimo

Posted in Arte Pantanal, Ruas de Cuiabá with tags , , , , , on 02/06/2011 by mariolimpio

Está aplicado no RU da UFMT. Não sei quem é o autor nem o homenageado.

Proibir é burrice.

Posted in Arte Pantanal, Ruas de Cuiabá with tags , , , , on 26/05/2011 by mariolimpio

A "Burrocracia" Vence a Arte.

Acordei com uma surpresa desagradável. O governo federal publicou no Diário Oficial da União uma lei que proíbe a pichação e “regula” a grafitagem. Veja aqui: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/05/26/publicada-lei-que-proibe-venda-de-tinta-spray-para-menores-de-18-anos.jhtm

Coisa de quem não tem o que fazer. O charme da grafitagem é ela aparecer de repente na nossa frente, sem nosso pedido ou autorização. A nossa reação frente à obra faz parte da construção da sua forma, da sua natureza. O grafite é a essência da arte contemporânea. Da interação cidade/pessoas. Da arte pública. Da manifestação da expressão. Da rebeldia. Da insatisfação com a paisagem urbana.

Este é um tipo de relação que se regula pelas leis da convivência.

Às vezes eu me arrependo de ser civilizado.

Mosaico de Twitts

Posted in Arte Pantanal, Ruas de Cuiabá with tags , , on 25/05/2011 by mariolimpio

Use esta imagem como avatar. Arte pública é de todos.

Libertem a Moça!

Posted in Arte Pantanal, Política Cultural - PCult, Ruas de Cuiabá with tags , , , , on 12/05/2011 by mariolimpio

Um grafite sugestivo. Libertem a moça.