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O Líder está Morto

Posted in Uncategorized with tags on 23/06/2013 by mariolimpio

Tenho uma análise pessoal sobre as manifestações rueiras dos últimos 20 dias no Brasil. Primeiro um panorama sobre o formato. São manifestações convocadas por meio das mídias sociais. São suprapartidárias, mas contam com a presença de partidos, especialmente aqueles que estão apeados do poder. São pluripautadas e nuclearizadas. Se eu fosse mais pedante eu diria: rizomáticas e randômicas. Cada pessoa, uma pauta. Aqui em Cuiabá tinha até marmanjo pedindo uma namorada igual à do Neymar: direitos iguais. O grau de engajamento deixou arrepiados os cabelos dos mais puristas.
Causa e consequência, a dona Dilma, depois de uma semana calada e tentando entender a coisa, foi à televisão e deu um espetáculo de ignorância e arrogância. Tiro três pontos do seu discurso. Ela disse que iria pedir ao congresso nacional a aprovação da matéria que destina a totalidade dos royalties da exploração do petróleo no pré-sal para os investimentos em educação.
Alô, dona Dilma? O investimento em educação é para ontem. Passar a bola pro Congresso não é lá uma ideia muito original.
Depois ela disse que condena os atos de vandalismo. Este é o discurso da direita. Da Rede Globo que pela primeira vez vê um movimento que não nasceu das suas ficções e que tenta agora, tardiamente, pautar. Eles querem uma manifestação ao estilo da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade que em 1.964 abriu as portas para o regime militar assumir em nome de uma questionável confortabilidade.
A dona Dilma empunhou armas, assaltou bancos e pode até ter cometido outras violências que estão muito, mas, muito além dos saques às lojas, prédios públicos e carros queimados, vistos nas manifestações das ruas. O momento era outro? Claro que era. Ela lutava contra a ditadura? Agora os rueiros lutam contra a corrupção e a favor de outras ideias de gestão e noções de desenvolvimento tão importantes quanto a luta contra a ditadura da dona Dilma e muitos de nosotros.
Tem mais. Resolver o problema da saúde com a importação de médicos cubanos é o mesmo que dizer que vai resolver o problema de infidelidade do cônjuge vendendo a cama onde ele pratica seus atos libidinosos e traiçoeiros. O problema da saúde coletiva tem à ver com o problema da democracia brasileira.
Mas, o discurso de dona Dilma é só o melhor retrato de como os políticos tradicionais entenderam, ou não entenderam, o recado das ruas.
O governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad deram outro espetáculo de incompetência política e falência estratégica na leitura das mensagens. Começaram descendo o cacete e terminaram achando que baixando o preço da passagem de ônibus resolveriam o problema.
Por fim, uma compreensão que me coloca meio na contramão das opiniões predominantes. Ouço constantemente pessoas amigas, e outras nem tanto, dizendo que esperam agora pelo desenrolar dos acontecimentos. Meio que esperando uma sequência do que aconteceu nas ruas. Naturalmente, outras dizem que esperam que esta manifestação acabe significando uma mudança de consciência na hora de votar, em 2014 e nas outras eleições que virão.
Sinto muito desapontar os amigos, nem tanto os inimigos.
Essas manifestações nas ruas não é o início de nada. É o fim. As pessoas foram às ruas para celebrar. Para comemorar – a festa da torcida campeã – uma ação que começou no momento em que aumentou o número de brasileiros na internet. Sim. Se existem símbolos predominantes nas manifestações esses símbolos são dois: a internet e o seu sistema operacional e o grande e simpático V, o herói da clássica grafic novel de Allan Moore publicada no final dos anos 80 e transformada em filme pelos irmãos Wachowski nos anos zero-zero.
São várias a presenças do sistema operacional da internet e de V nas manifestações. A primeira: não há líder. O líder morreu. Este é um princípio do anarquismo. Aliás, V é um anarquista. Em Cuiabá alguém tentou fazer palavras de ordem do alto de um trio elétrico. Foi cômico. Ninguém seguiu. A caminhada se dividiu em duas e sem prejuízo, cada uma foi para um lado. Valeu. Precisamos caminhar mais.
Outra característica: a variedade de pautas e reivindicações. O ditado cuiabano já antecipava: cada qual com o seu deles. Estamos juntos, misturados e vamos adiante. Mas, eu com as minhas ideias e você com as suas. A gente se encontra onde a linha paralela cruzar. Foi divertido ver a quantidade de posts/pôsteres empunhados pelos manifestantes.
Existe um ponto especialmente bom. As pessoas me dizendo que querem ver o que vai acontecer nas urnas.
Pessoas, sosseguem!
As urnas acabaram. As eletrônicas e a manuais. O brasileiro universal acabou de dizer: quem manda é a rua e a rua decide o que vai acontecer. Políticos, preparai-vos, começou um outro olhar. E a rua é a internet. O que aconteceu é que os tradicionais, puristas e saudosistas – para dizer pouco – diziam: eles ficam no computador e não vão para as ruas. O que as ruas falaram é isto: estamos na internet e nas ruas! É pouco ou querem mais?
Meninas e meninos, o Brasil mudou. O modelo democrático que até então vigia, acabou e a partir de agora o momento é outro. Quem não entender, bacana, tenha a decência de não atrapalhar. Quem entendeu, vamos adiante.
Outra coisa, o Renato Russo é o muso das paradas.
Vejam isto: http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4

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